quarta-feira, 5 de abril de 2017

Bom Dia

Eu me deparei sentado à frente da tv, desligada, observando um reflexo na cama. Era você, descansando um pouco antes de ir embora, pois já eram quase seis da manhã e ambos tinham que trabalhar daqui a pouco.

Na mão, uma dose de rum – como todo bom e velho pirata dos mais diversos filmes, navegando em águas profundas, pensando em tudo, em nós, no mundo. Por muito tempo eu pensei que aqueles dias eram diferentes, mas me enganei: hoje era diferente, dois tempos ao mesmo instante, vários sentimentos e desejos, porém, uma única certeza.

Fiz questão de manter a cortina fechada, pra ficar escuro por mais tempo e, assim, você ficar ali por mais tempo. Fiz questão de preparar um café da manhã, fiz questão de me arrumar antes de você acordar... Fiz questão de muita coisa, em tão pouco tempo, que nem ao menos saberia sua reação.

Fui embora assim que deixei tudo pronto pra você, quando acordar. Eu não estarei mais ali, quem sabe realmente se algum dia estive ou, ainda, se eu existi realmente pra você.

A gente vive tão intensamente certos momentos e sentimentos que, muitas vezes, eles acabam se tornando reais sem nem mesmo existirem.


Bom dia.

segunda-feira, 20 de março de 2017

O Mar

Ele remava, incessante e incansavelmente, em direção a ela. Vinte mil léguas submarinas seriam poucas naquele momento, tamanha era a determinação que alimentava cada remada.

Aos poucos foi se aproximando e, então reduzindo as remadas...Lentamente. Ela já não mais sorria como na noite anterior, não tinha os lábios vermelho vivo, mal abria os olhos. De imediato, ele usou as últimas forças que restavam para trazê-la ao barco e, então, poderem navegar até encontrar socorro.

Doeu, cansou, enjoou, anoiteceu, amanheceu, esquentou, esfriou. Ela não demonstrava lutar mais, não tinha forças; ele, tentava transmitir forças a ela – mas sequer conseguia respirar devidamente.

Aos poucos, foram adormecendo calmamente e, de mãos dadas, repousaram naquele mar. Vida, era como muitos navegantes chamavam àquele mar: desafios constantes o faziam agitar e surpreender quem o enfrentasse, exigiria resistência e bravura mas, no fim, compensaria. E não foi diferente com eles.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Quer Saber?


Eu te liguei por que quis, não por engano. Senti saudades, do seu cheiro, do seu beijo, teu sorriso, das tuas broncas por ser tarde e não ter comido nada ainda.

Eu tô no portão do seu prédio, mas sem coragem pra interfonar. O porteiro até quis te chamar, mas eu pedi que não. E não é por falta de coragem – na verdade, eu teria entrado, subido e estaria na sua porta.

Mas, quer saber? É loucura tudo isso. Talvez, seja loucura.

Mas você poderia não ter me atendido, caso realmente não quisesse mais nada de mim. Poderia não ter dado uma resposta no dia em que te esperei sair do trabalho só pra acompanhar até o carro e dizer: até logo.

Acho que, nesse jogo de “quem é mais forte”, nenhum de nós vai ganhar. Você virou uma página, eu rasguei outra. Ambas páginas eram de livros diferentes, e estavam em branco, mas mal percebemos.
Pura revolta. Mas que não durou quinze minutos. Nossas brigas nunca duraram muito tempo, ao contrário do nosso amor.

Quer saber? Somos loucos, um pelo outro. Não fosse isso, eu não estaria aqui, no telefone contigo enquanto subo as escadas e você não teria deixado a porta aberta – e me avisado disso.


Quer saber? Se a nossa história não tivesse importância, eu não teria chegado pro café da manhã, doze horas antes. E você não teria aberto a porta.

Champagne

Arrumei a mesa, nossos lugares um de frente para o outro. Na cozinha, em meio a um pouco de bagunça e manchas de molho na pia e no chão, me desdobrei em vários pra conseguir terminar o jantar.

Eram quase oito, você estava pra chegar e eu nem havia tomado banho ou, sequer, arrumado a casa – que estava bem bagunçada. Blusa e calça jogados no sofá, um pouco de poeira no chão, meu quarto bem bagunçado e, fechando com chave de ouro, o banheiro precisava urgentemente ser arrumado. Coisas de homem, você pensaria ao ver a casa naquele estado, mas a verdade era que eu mal ficava ali, não havia porquê. Sua cama era melhor que a minha.

Tive a certeza de que, por você, eu era capaz de qualquer coisa. A casa parecia nova, como se eu tivesse contratado alguém disposto o bastante a organizar e trazer vida de volta ao ambiente, e com toda certeza você não acreditaria que eu fiz aquilo tudo sozinho e em quarenta minutos.

A campainha tocou, o que foi um descuido do porteiro pois eu havia pedido que avisasse sobre sua chegada. Dei o último retoque no cabelo, aquela checada prática do hálito – como sempre, impecável – e fui, então, ao seu encontro. Seu sorriso lindo, acompanhado de um olhar indireto sob o cabelo levemente caído no rosto, me deixaram sem ação por alguns instantes até que, terminando de fitar seu vestido rosa claro que compramos na última viagem juntos. Você estava linda, a mais linda!

Imediatamente te levei à mesa e fui em direção da cozinha. Discretamente observava você, pela porta da cozinha, admirada com a organização da casa – como eu havia previsto. O jantar estava na mesa, você, mais uma vez, admirada com a aparência do prato levantou o olhar:

- Por que tudo isso?
- Por você. Ontem, hoje e sempre.
- Então...

Me levantei e fui até a cozinha. Voltei com uma garrafa daquele champanhe que você mais gosta e uma caixinha escondida por um lenço. Dentro dela, só você saberia o que há. Seu sorriso, ao abri-la, evidenciou a surpresa e, arrisco eu, a felicidade no presente.

Presente, que já fora passado e, agora, seria futuro. Nosso futuro.

Um sorriso, um beijo, risadas, abraços, um pouco de sujeira e, finalizando a noite, a cama desarrumada.

Por mais noites como essa, com você. Faço jantar, limpo a casa, me desdobro em quantos for preciso.


Por você.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Passei pra dizer que ainda me lembro

Foi além da pele, além de um simples interesse em te conhecer. Foi além, e pode ter certeza, que ainda permanece em alguma parte, alguma memória.

O seu perfume, seu olhar, sorriso, seus cabelos longos...Cada detalhe permanece vivo e acessível para cada instante em que eu queira reviver nossa aventura. Pra ser bem sincero, eu sinto é saudade de você, das conversas caladas, dos olhares apaixonados e, ao mesmo tempo, desconfiados.

Sinto falta. Sua falta. E nada mais.


Nossa despedida não aconteceu e, ainda que aconteça, você será eterna.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A Estação

Eu observava, do outro lado da plataforma, um casal e seus dois filhos. Enquanto a mãe distraia e dava de comer ao mais novo, o pai se divertia com a outra filha em uma brincadeira que eu não conhecia mas que, certamente, era muito divertida.

Os pais, entre uma garfada aqui e outra risada ali, se entreolhavam sorridentes. Era um sorriso puro, se via apenas respeito, amor e sinceridade entre eles. Comecei a refletir sobre tudo à minha volta; aos meus treze anos eu sonhava em ser pai aos vinte e um, e ser avô aos cinquenta. Pensei nas namoradas que tive, nas oportunidades que perdi – e nas que aproveitei mas não levei até o final.

Lembrei de amores roubados, beijos escondidos, amores proibidos. Lembrei de você também, pois via naquela mulher da outra plataforma o mesmo sorriso de quando nos encontrávamos ou, então, de quando falávamos sobre família e eu lhe confidenciava o desejo de ter três filhos. Ah, como eu amo o teu sorriso!

Via naquelas crianças uma juventude inteira pela frente, repleta de alegria, amor e oportunidades e sentia o dever de alertá-las sobre a importância de se agradecer a cada manhã nova, a cada raio de sol que entraria pela janela. Sentia o dever de dizer: ouçam seus pais sempre mas, sempre que puder, tentem mesmo que digam ser impossível; queria dizer que lágrimas cairiam daqueles lindos olhinhos mas que, lá no fundo, seria necessário e ajudaria na vida adulta; queria dizer que, apesar de cansativa, a universidade e o conhecimento são necessários para que se aça a diferença na vida de outras pessoas – e nas nossas também.

Sentia o desejo de alertar sobre as aventuras do amor, precaver quanto às decepções e armadilhas, invejas e tentativas de destruir o que eles haviam conhecido e vivido dentro de casa como sendo o amor verdadeiro. Dizer que quando o coração doer, é porque a pessoa faz falta de verdade; que quando houver lágrima logo depois vem o sorriso; que quando houver pedaços, haverá como consertar basta deixar que o tempo sirva como reparador.

Eram tantos conselhos para dar, segurança para passar àquelas crianças. E eu senti o desejo, me levantei e comecei a caminhar em direção delas.

O trem chegou, a porta se abriu diante de mim e pude, então ir embora. Afinal, de que adiantaria dar a receita de uma vida perfeita sendo que, na verdade, o que se espera de qualquer ser humano é que viva de forma a errar e aprender com cada ação.


De que adiantaria uma receita só, para produzir vários mesmos de um eu? 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Cronologia

Por um beijo eu faço até declaração e, por mais que isso possa soar falso, eu falo sério. Com um beijo seu eu declaro amor, guerra à solidão, declaro aos quatro ventos que você domina meus pensamentos e meu coração.

Faço jantar romântico ao invés de te levar a um restaurante, te acompanho em uma dança em qualquer lugar. Aprendo a gostar de pagode, tango, rock e quaisquer ritmos mais que você gostar – dançar, de fato, vai ser o maior desafio.

Sabe, o que me interessa e importa no final disso tudo é parar de pensar em você o tempo todo. Sabe por quê? Porque se eu não precisar só pensar, significa que te tenho quando passar das seis e já for noite, significa que dormirei do seu lado, te darei presente no dia dos namorados...Significa muito não ter que só pensar em você.

Mancha minha boca? De preferência, de vermelho. Sua boa fica linda de batom vermelho, seus olhos azuis e o cabelo preto ficam mais vivos e mais penetrantes: vão da alma ao coração em instantes e dominam até o mais fechado peito.

Desarruma minha cama? Seja fazendo amor ou espreguiçando ao acordar no sábado de manhã. Ou, então, podemos deixar a cama bagunçada mesmo, não precisa ser uma obrigação arrumar se sempre houver desejo de desarrumar.

Quero jantar na casa dos seus pais. Ver você ligando e marcando a tal “apresentação do amor da sua vida”, igual vi digitando na mensagem que enviou pra sua irmã; quero ver sua preocupação em chegar no horário mas, ainda assim, atrasar enquanto se arruma – e eu sempre te digo que basta a luz do sol pra te deixar mais linda ainda.

Imagina nós dois no altar. Ao ar livre, com os melhores amigos e a família assistindo ao primeiro momento mais especial de nossas vidas, chuva de arroz e abraços enquanto, de mesa em mesa, seus irmãos me fazem pedir dinheiro a quem estiver pelo caminho.

Pensa em um nome para o nosso primeiro filho? Porque eu sei como vai se sentir na primeira gravidez. Não vai ser nada fácil, mas estarei do seu lado seja dia ou noite e independente do desejo mais louco que apareça de madrugada. E virão mais dois filhos ainda, e muita madrugada pra eu passar acordado ninando e cuidando deles. E de você.

O casamento dos nossos filhos, a vinda dos netos, a idade passando. Uma cronologia simples, mas que vai ser única e especial: a nossa vida.

Seus cabelos já não serão tão pretos, mas ainda assim serão lindos e seus olhos ainda terão o azul vivo da juventude. Eu, entretanto, não terei mais os meus e, junto com isso, talvez não haja todo aquele vigor físico de quando nos conhecemos ou eu não escute tão bem a sua doce voz. Ainda assim eu sei que vai me amar até o fim.


Nada vai mudar nossa cronologia.